il nome mio nessun saprà

Setembro 22, 2008 por António Reis

Mesmo que por encomenda fosse, a tarde de hoje não podia estar mais de acordo com a tarde de hoje.   Lá fora acontece a extraordinária beleza de um dia horrível. Um olhar, por entre as janelas, encontra, por causa da chuva ininterrupta, nas casas, nos carros e nas pessoas, encontra um som. Encontra um surdo surdo de quem enlouquece. Encontra a banda sonora da própria loucura.

O louco baixa a guarda. Fecha a janela. Procura o tom certo, sopra o pó dos discos. Nessum Dorma. “ guardi le stelle, che tremano d’amore e di speranza… Ma il mio mistero è chiuso in me, il nome mio nessun saprà” . O louco prepara a morte com método. Começa, pára, recomeça. Idealiza, genializa, na solidão perfeita dos próprios intentos. E então, com método, encontra metáforas, faz o faz de conta: a agulha é uma arma; o disco é a cabeça; a música, uma bala.

O princípio da morte é o som poderoso de uma música. É um tiro. As voltas do disco são uma bala filmada em câmara lenta. A voz do cantor lírico é um filme em marcha atrás da vida inteira. Como se vê nos filmes, aqui, a voz do cantor lírico desenha imagens, fotografa momentos.  “Ed il mio bacio scioglierà il silenzio che ti fa mia !”

Durante toda  a viagem da bala, quase morto, canta o original italino aqui traduzido assim: “Esvaneçam, estrelas… Ao amanhecer eu vencerei! Vencerei! Vencerei! ” E morreu nesse preciso instante, na exultação da liberdade.

Para quem fica, fica isto: e agora falem, digam, desdigam. A liberdade do louco acabou com a vossa. Com ele morto, que vos resta, ó séquito de bestas, para sussurrar? A vossa liberdade de devassar a vida dele morreu com ele. Os estilhaços ficam convosco, em forma de remorsos. Chorem lágrimas hipócritas ou soltem risos verdadeiros. Mas que ninguém esqueça uma frase antiga: quando eu morrer não chores por mim. Posso estar a divertir-me.

 ”Ma il mio mistero è chiuso in me”

Nessun Dorma.

Excertos do Futuro [1]

Setembro 19, 2008 por António Reis

Embrulho neste texto planos para um domingo à tarde. Há-de ser numa hora de luz branda, encontrados no coração da cidade, numa praça do passado. (continua)

Um diálogo ao acaso com uma mulher

Junho 19, 2008 por António Reis

 

 - Mas sabes qual é o sonho da minha vida?

- Qual?

-Poder viver da escrita. Ou melhor: ela poder viver depois de eu morrer.

- …

- Mas não tenho tempo para escrever. Ando muito ocupado a viver…

- Tu não andas a viver. Andas a sobreviver.

Pequenas estórias d´Avenida (2)

Junho 10, 2008 por António Reis

Boavista - Este conto terá a brevidade necessária de um par de mamas num relance. Ela está com ar de quem vai atravessar a passadeira sem esperar para ver se o carro pára ou não. Que páre, pensará. Mas ele segue em frente e quem pára é ela, no limite do passeio. Ela fica ali surpresa, apesar de ir no canto do olho esquerdo de um condutor arrependido de não ter cedido a vez à menina. Teria tido mais tempo para dar o devido valor à lycra branca, presa por duas alças singelas, directamente sobre um peito atrevido de sorriso largo. Apontado ao céu, para felicidade dos comuns mortais.

Elsinore by the way

Junho 3, 2008 por António Reis

No Castelo de Kronborg

 

Elsinore (Helsingor, Dinamarca), numa viagem marítima, fica a 20 muntos de Helsingborg (Suécia). A partir daqui, lá chegar custa 27 coroas suecas, qualquer coisa como 2 euros e 70 cêntimos. Fomos num dia sol, num paquete da Scanlines com o sugestivo nome de Hamlet. No piso superior, ao ar livre, o meio da viagem, mesmo num dia de temperatura amena, aconselha e pede um casaco. E obriga mesmo a uma descida a patamares cobertos, mas apenase só para demorar o tempo necessário de pedir um café e voltar a subir. Elsinore está sempre em linha de vista, logo desde o porto de Helsingborg.

De corpo já encasacado e caneca de plástico à mão, o melhor é mesmo ficar pelo convés e não perder um segundo que seja, deste zoom sobre o atlântico, ao porto de Elsinore. É um espaço com rugas - numa apreciação sobre o joelho - é um espaço com vida, podem dizer outros, ou poderá ser também e ao mesmo tempo um lugar de histórias. 

Avançando terra dentro, após uma primeira paragem numa casa de câmbios, Elsinore apresenta-se em ruas pedonais muralhadas por espaços comerciais. Ganham com larga maioria as lojas de bebidas alcoólicas. Depois as roupas, a seguir os restaurantes. Logo ali à chegada, uma esquina faz a entrada de um hotel em madeira branca e remates a verde. Ali chegados, estamos no Hotel Hamlet. Um pouco mais adiante, virando numa rua à esquerda e entrando depois numa arcada à direita, estamos no Teatro de Elsinore. Aparece logo depois de um pátio interior. Tem o nome escrito a preto numa parede branca. Tem pó nos vidros e a tinta cinza das portas de madeira está muito gasta. O cheiro é antigo e abandonado.

Fugindo desta baixa comercial, continuamos a pé até ao castelo de Kronborg. Espreitamos Elsinore em duas horas.

Suécia no retrovisor

Junho 3, 2008 por António Reis

…rostos suaves, cabelos de perdição, muita cor no olhos. Aqui, no norte da europa, as mulheres trazem no olhos o mar na linha do equador. Talvez os corpos sejam areira branca e promessa de calor dos trópicos.

Boxeur

Maio 12, 2008 por António Reis

[continuação]

Enquanto vai ocupando os armários da kitchnet, mói para dentro que a comida satisfaz o corpo, mas pode estragar o espírito. Fica a matutar naquilo e chega depressa a uma conclusão. A comida estraga qualquer projecto de literatura. Nenhuma frase fica bem com cebolas e alhos pelo meio, nem mesmo para encher chouriços. Tira um bloco azul, muito pequeno, do bolso de trás das calças e anota: “a comida estraga qualquer projecto ou ideia de literatura. Não escrever nunca sobre alimentos”. Acabou a tarefa fechou o armário e foi fumar lá para fora, decidido e sorridente com aquela inesperada preocupação de não engordar os leitores. Quando regressou já era noite. Vinha esbaforido, num passo atrapalhado, a transpirar mais do que a idade permitia. Vinha com pressa de contar à máquina de escrever o final de tarde do primeiro dia. Tropeçou na caixa dos garrafões de água

[continua]

British bullshit award

Maio 9, 2008 por António Reis

So you miss me like hell. It was when i held you like a miss. Dismiss. No kiss. Like Kids. Go deep. Gossip.

 

Boxeur

Maio 9, 2008 por António Reis

[continuação]

A praia da mais do que provável última morada é o abandono em pessoa. Tem um sítio estreito para dormir ao qual não nos atrevemos a chamar quarto. Nesse espaço cabe meia cama de solteiro, que ele ocupa com uma chaise long, e de tão estreita ser, a parede deu quase a totalidade do corpo a uma janela em forma de porta. A sala é sala e cozinha ao mesmo tempo. Com o avançar dos dias vai ser sala, cozinha e quarto. Lá mais para a frente vai ser tudo. Vai ser o mundo inteiro de um homem, até ele se apercerber que afinal, tudo, pode ser nada.
A porta da frente dá para a rua, se quisermos chamar rua a um caminho de terra com marcas de rodado nos limites laterais e erva densa pelo meio. A estrada principal mais próxima fica a 50 minutos a pé bem contados. A porta de trás abre a casa à areia da praia e deixa o mar, recortado, em fundo.
Toda a comida dispensa frigorífico. Três postas de bacalhau, o resto de uma garrafa de azeite, uma de vinagre. Um quilo de batatas, quatro cebolas e outros tantos alhos. Sal. Uma lata de feijão vermelho cozido, pacotes de batata frita. Sete garrafas de vinho e duas de whisky. Três broas de milho.

[continua]

Boxeur

Maio 9, 2008 por António Reis

Esta é a casa de um lutador. Um homem versátil. Estas paredes são as cordas do ringue ou as cortinas de uma boca de cena. Aqui existe uma luta de vida ou morte entre um homem e a incapacidade de escrever. Ele está no último degrau da normalidade. Está disposto – disposto não, está muito mais do que isso – está determinado a deixar a própria vida nas mãos da escrita. Refugiou-se aqui com a obsessão de colocar palavras no papel. Veio para escrever com luvas de boxe ou sapatilhas de ballet. Trouxe água para vinte dias e alimentos para uma única semana. Antes de se mudar para cá mandou cortar a luz e fez o mesmo com a água da companhia. Não há gás, televisão ou internet nesta casa. Nem telefone ou telemóvel. Ele veio para desenterrar todas as letras daquele corpo delgado. Sabe que na pior das hipóteses, se tudo correr mal, se for incapaz de sair vencedor, terá de ironizar com a situação. Terá de usar o sarcasmo em si próprio e, antes do último sopro, deve deixar numa folha, a título quase póstumo, a inscrição aqui jaz um falhado.
[continua]