Arquivos para a Categoria ‘Verónica’
Verónica a caminho do fim
Março 5, 2008O norte do Porto
Março 5, 2008Este vento frio, de cima para baixo, medido na latitude, somos nós.
Chamada a pagar no destinatário
Março 5, 2008Dezasseis dias fora do país pode dar nisto. Lembrar-me de ti, respirar a falta do teu cheiro, o som da tua voz, o movimento das ancas, desenhadas no vestido preto, ao longo do passadiço na praia. Ligas uma, duas, três, dez, vinte vezes, voltas a ligar, não há mais bateria, ouves-me no voice mail. Devem ser duas da tarde no Porto. Talvez não estejas, mas talvez sim. Acordam-te em espanhol, e meia a dormir meia a sonhar, aceitas-me, falas-me do impossível de tudo isto.
Happy Birthday
Março 3, 2008Em pé, óculos escuros, mãos nos bolsos, calças largas, descidas na anca, cor de camelo, t-shirt azul escura muita escura. Tem um raio, pelo menos parece um raio ao longe, um raio branco. Tem um raio visto ao longe, um raio que não é raio. É um ponto de interrogação sobre o peito.
Em pé, está o mar ali em baixo, está a areia até ele, suja, muito suja, tão como suja como em todos os 21 de Março. O vento está forte, vem de norte, neste dia, como em todos este dia, dos anos anteriores.
Cabelo castanho, foge para o loiro sem gel, mas castanho assim como está, efeito molhado e escuro. Sapatilhas em azul não tão escuro como o azul muito escuro da t-shirt.
Está sol e frio.
O primeiro dia de alguma coisa é sempre o último de tantas.
Em 27 anos, a primeira prenda de mim para mim. Uma casa. Um quarto, uma sala, uma cozinha, um wc, uma dispensa, uma varanda, um escritório. Um habitante. Eu.
O primeiro dia de alguma coisa é sempre o último de tantas.
É o fim dos dias na Praia da Aguda, do sol nesta esplanada, quase trezentos dias por ano. É mais ou menos sempre que não chove.
Em casa, a cama não volta a aparacer feita, o prato não há-de estar cheio por si só na mesa posta, nem a louça vai estar lavada por magia nos armários.
Em 27 anos, este é o primeiro aniversário, sem jantar de mesas juntas, cheias às dezenas. Hoje não estou para ninguém.
O Porto é silêncio à noite. Já quase não existem carris para o eléctrico. Costumava passar em frente, ali em baixo.
Em pé, cabelo mais aloirado, primeiros toques de bronze, boxers pretos, duas pedras de gelo e whisky na mão direita.
A campainha toca a uma hora em que não é susposto tocar.
É a Verónica, absolutamente fabulosa. Acabadinha de chegar de Lisboa. Acabadinha de sair dos monitores dos estúdios de produção. Diz-me que passou a tarde num vestido curto, preto. Diz-me que passou a tarde ora dentro ora fora de um Peugeot novo que vai ser lançado em Portugal em Abril. Diz-me que ficou perfeito, arrasta-me para o quarto, sem me dizer o quer. Deita-me de costas, amarra-me os braços, um a cada lado da cama e despe-se. Tem uma tanga preta, tão preta como o soutien. Vem para mim, com um lenço na mão. Cobre-me os olhos. Beija-me com o dedo que acabou de beijar e canta, sussura ao ouvido, já em cima de mim: “happy birthday to you, happy birthday to you”.
De olhos vendados, vejo-a ficar nua. Em cima e depois em baixo
