Arquivos para a Categoria ‘Homens’

Auto-retrato

Novembro 18, 2008

A isto chama-se escrever para dentro. Não será uma visita prolongada ao espelho; antes uma fotografia com letras. Isso mesmo: um momento. Porque o que por aqui se dirá agora, só dirá respeito a este agora e não mais do que isso. Vamos a isto, mãos à obra pelo que está à vista; pela parte de fora desta embalagem de gente. Vou pelas mãos: estão sempre expostas, sempre “à mão”, mas nunca estão no ponto de mira. Raramente olhamospara elas, melhor, raramente reparamos nelas. Vejo-as iguais, do mesmo tamanho desde não sei quando, com as minhas linhas, os mesmo nós. Da parte de dentro das mãos já nem falo. Essa está como desde sempre. Uma impressão pessoal única.

Estou sentado a meia dúzia de passos do mar. Está frio. Pouco frio, mas frio. O sol espreita por fim. Vem lá do alto, por cima de nuvens brancas e cinzentas. O sol vem devagarinho, gosto de dizer que chega numa velocidade tímida, mas talvez não seja por isso. Talvez o sol também esteja com frio e não tenha muita vontade de sair de casa. A luz do dia reflecte-me o rosto no ecrã do computador. Salienta-me a barba. Preguiçosa, com um ar de quem já não faz nada há uma semana. Os pêlos vivem felizes numa desordem caótica, mas ao mesmo tempo democrática, livres para decidirem para que lado crescer. E eu gosto. Rebeldes, dão uma vida diferente às linhas de uma face emagrecida.

O casaco. A camisa, as calças e as sapatilhas tapam um corpo em mutação. Foram-se os quilos, 10, e vieram as formas. Lisas, endurecidas, definidas. E eu gosto. E gosto acima de tudo da expressão malandra dos olhos. Têm à volta o que mais aprecio em mim: as rugas, caminhos marcados na pele. Lembro-me dos ombros e lembro-me da palavra força. Os braços dizem-me esforço. A barriga, exercício. Os pés e as pernas suportam tudo isto com um sorriso que me transporta para todo o lado. O que está assim mais à vista, por fora, talvez seja apenas a metáfora perfeita de tudo aquilo que acontece cá por dentro. Hoje sou um dia de paz. E até gosto.

Eco

Outubro 30, 2008

Sem ideias, nem tema para conversa escrita, o som do silêncio pode reproduzir um ruído muito semelhante a uma repetição distante. Estes são os momentos certos para calar e experimentar uma outra forma de comunicação: a escuta. Nem sempre temos a percepção correcta de como podemos dizer as palavras certas estando apenas na disposição de ouvir.

Le marriage

Setembro 23, 2008

Atentemos no “barulho” que por aí anda sobre o casamento entre homossexuais. É mesmo preciso conversa pública? É mesmo necessário existir ainda discriminação quanto ao género de um vínculo legal entre duas pessoas que se amam ou que pretedem uma vida em comum? Sim, tanto “barulho” para quê? Peço um motivo, único, válido, lógico, racional, intelectual ou humano para impedir a legalidade do casamento entre homossexuais.

O país continua a assobiar para o lado, os legisladores viram a cara, os governos sucedem-se com a nulidade uns dos outros… Enfim… Tudo na mesma, tudo igual. Sem espaço, de facto, para a dita diferença.

Está aí à porta um ano de eleições e todos querem a absoluta maioria dos votos. Nem que seja uma maioria absolutamente estúpida.

Proibido, e por decreto lei, deveria ser o casamento dos portugueses com os políticos cá do burgo. Talvez um dia Portugal decida divorciar-se dessa gente.

Boxeur

Setembro 23, 2008

[continuação]

Tudo o que tinha era o corpo. Tudo o que tinha era velho, doente, usado até. Tudo o que tinha eram os últimos dias de vida. Tudo o que tinha era ele. Um rosto fechado e magro. Cabelo escasso e cinza. Pele sobre os ossos, comida pelo sol, e rugas. Fisicamente ele era meia dúzia de adjectivos pardos. E fisicamente sentia-se assim. As emoções tinham o mesmo tom infeliz. E ele, comandante solitário daquela vida dorida, lembrava-se de ser como está hoje em dia, desde sempre. Quando puxa os dias atrás, precisa de uma força de mil homens para recordar. Por norma está deitado quando inverte a curva do tempo e viaja aos dias mais antigos. Fecha os olhos e só ao fim de algumas horas consegue arrastar a memória para lá das lembranças de adulto. Imagina um escritório abandonado. Vê-se a abrir metade de uma portada de madeira para deixar entrar uma faixa de luz. O pó dança compacto e a dança sufoca. Tenta evitar, mas tem de tossir. Esta pausa é click obrigatório para a jornada de regresso. Tosse, pára, retoma respiração normal, volta a fechar os olhos. E então sim, está no Outono dos calções de flanela, suspensórios escuros, camisa russa por dentro do calções, meias pelo tornozelo, botas de sola dura. A imagem, dos pés à cabeça, termina sempre num boné castanho

 [continua]

il nome mio nessun saprà

Setembro 22, 2008

Mesmo que por encomenda fosse, a tarde de hoje não podia estar mais de acordo com a tarde de hoje.   Lá fora acontece a extraordinária beleza de um dia horrível. Um olhar, por entre as janelas, encontra, por causa da chuva ininterrupta, nas casas, nos carros e nas pessoas, encontra um som. Encontra um surdo surdo de quem enlouquece. Encontra a banda sonora da própria loucura.

O louco baixa a guarda. Fecha a janela. Procura o tom certo, sopra o pó dos discos. Nessum Dorma. “ guardi le stelle, che tremano d’amore e di speranza… Ma il mio mistero è chiuso in me, il nome mio nessun saprà” . O louco prepara a morte com método. Começa, pára, recomeça. Idealiza, genializa, na solidão perfeita dos próprios intentos. E então, com método, encontra metáforas, faz o faz de conta: a agulha é uma arma; o disco é a cabeça; a música, uma bala.

O princípio da morte é o som poderoso de uma música. É um tiro. As voltas do disco são uma bala filmada em câmara lenta. A voz do cantor lírico é um filme em marcha atrás da vida inteira. Como se vê nos filmes, aqui, a voz do cantor lírico desenha imagens, fotografa momentos.  “Ed il mio bacio scioglierà il silenzio che ti fa mia !”

Durante toda  a viagem da bala, quase morto, canta o original italino aqui traduzido assim: “Esvaneçam, estrelas… Ao amanhecer eu vencerei! Vencerei! Vencerei! ” E morreu nesse preciso instante, na exultação da liberdade.

Para quem fica, fica isto: e agora falem, digam, desdigam. A liberdade do louco acabou com a vossa. Com ele morto, que vos resta, ó séquito de bestas, para sussurrar? A vossa liberdade de devassar a vida dele morreu com ele. Os estilhaços ficam convosco, em forma de remorsos. Chorem lágrimas hipócritas ou soltem risos verdadeiros. Mas que ninguém esqueça uma frase antiga: quando eu morrer não chores por mim. Posso estar a divertir-me.

 ”Ma il mio mistero è chiuso in me”

Nessun Dorma.

Boxeur

Maio 12, 2008

[continuação]

Enquanto vai ocupando os armários da kitchnet, mói para dentro que a comida satisfaz o corpo, mas pode estragar o espírito. Fica a matutar naquilo e chega depressa a uma conclusão. A comida estraga qualquer projecto de literatura. Nenhuma frase fica bem com cebolas e alhos pelo meio, nem mesmo para encher chouriços. Tira um bloco azul, muito pequeno, do bolso de trás das calças e anota: “a comida estraga qualquer projecto ou ideia de literatura. Não escrever nunca sobre alimentos”. Acabou a tarefa fechou o armário e foi fumar lá para fora, decidido e sorridente com aquela inesperada preocupação de não engordar os leitores. Quando regressou já era noite. Vinha esbaforido, num passo atrapalhado, a transpirar mais do que a idade permitia. Vinha com pressa de contar à máquina de escrever o final de tarde do primeiro dia. Tropeçou na caixa dos garrafões de água

[continua]

Boxeur

Maio 9, 2008

Esta é a casa de um lutador. Um homem versátil. Estas paredes são as cordas do ringue ou as cortinas de uma boca de cena. Aqui existe uma luta de vida ou morte entre um homem e a incapacidade de escrever. Ele está no último degrau da normalidade. Está disposto – disposto não, está muito mais do que isso – está determinado a deixar a própria vida nas mãos da escrita. Refugiou-se aqui com a obsessão de colocar palavras no papel. Veio para escrever com luvas de boxe ou sapatilhas de ballet. Trouxe água para vinte dias e alimentos para uma única semana. Antes de se mudar para cá mandou cortar a luz e fez o mesmo com a água da companhia. Não há gás, televisão ou internet nesta casa. Nem telefone ou telemóvel. Ele veio para desenterrar todas as letras daquele corpo delgado. Sabe que na pior das hipóteses, se tudo correr mal, se for incapaz de sair vencedor, terá de ironizar com a situação. Terá de usar o sarcasmo em si próprio e, antes do último sopro, deve deixar numa folha, a título quase póstumo, a inscrição aqui jaz um falhado.
[continua]

O homem roubado

Março 14, 2008

pescador2.jpg 

Tão habituado à presença dele, tão certo de o ter por garantido, passei por lá sem reparar que ele não estava. Alguém me diria, mais tarde, do seu desaparecimento. Mas quando por lá passei, entretido com a conversa flutuante das gaivotas, nem reparei. Acho  mesmo que lhe dei as boas tardes, disso não duvido, mas é como digo, olhar para ele não olhei, tão certo de o ter por gantido, ali, de costas para o azar das marés, com um peixe às costas para alimentar a persistência dos pescadores. 

Sempre o tratei por tu, mas no entanto nunca perdi um segundo que fosse para lhe dar um nome. Deve ter sido por causa desta minha coluna, vertebral e agnóstica. 

Era um homem alto, de olhos escuros, com a mais rija das barbas. Num ou noutro ocaso, imaginei-lhe um cigarro pendido nos lábios, apesar de saber com uma certeza a fugir para a dureza do bronze, que ele nunca fumou em toda vida. Falou sobre as gentes do mar, durante uns meses, enquanto lá esteve, sem a necessidade de dizer uma única palavra. E não podendo, ouviu o som surdo das ondas, o grito agoniado das sirenes ou o riso das pegadas das crianças na areia. Sei que, não podendo, viu o sol de todas as manhãs, virado para terra como estava; viu choro dos estranhos e acredito que mesmo não podendo, terá chorado com eles lágrimas gémeas de compreensão. Acredito com uma certeza a fugir para a dureza do bronze, que, na noite em que o levaram, viu a luz do farol e ouvi-a gritar por socorro.

Acredito em tudo isto porque alguém me disse mais tarde do seu desaparecimento, com recurso a palavras em português acessível:”foi de noite, seis gajos numa carrinha. É para droga, o pescador é pesado para caralho. Foi para derreter”.

A minha lista de ódios de estimação abriu um alínea para os ladrões de estátuas.

Picasso a meio da tarde

Março 5, 2008

O cabelo é ralo e apesar disso rockabilly. Os óculos são Woddy Allen, o sobretudo preto vai até aos pés, até bem perto das botas pretas de tacão. Ele já está para lá da metade dos trinta; podia ter sido uma capa de disco nos anos oitenta.
Paga um café com uma nota de cinco euros e chama ainda mais à atenção porque pede um cigarro ao empregado de balcão. Regressa para junto da mesa. Está lá um caderno preto e um cinzeiro da mesma cor, em plástico, do estabelecimento. Acende o cigarro e guarda o isqueiro no bolso direito. Do mesmo bolso tira um cinzeiro em alumínio, cinzento, e pousa-o na mesa. Senta-se, fuma o cigarro, apaga-o no cinzeiro cinza.
Levanta-se, despeja a beata no lixo, guarda o cinzeiro com cinza no mesmo bolso, pede um cigarro ao dono da esplanada e vai embora com o caderno debaixo do braço esquerdo e mão direita volta ao bolso à procura do isqueiro.
Vai embora pelo estrado de madeira na areia.Dizem-me que é o Picasso, “é maluco”, sublinham, para o caso de não ter percebido. Imagino também que desenhe naquele caderno preto. Hoje o tempo não estava para isso. Era uma tarde fria e cinzenta, perfeita para apagar naquele cinzeiro que vai a caminho de casa escondido no bolso do sobretudo.