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Cartas de Matilde (1)

Março 22, 2008

Sou um rapaz apaixonado pelo talento desta mulher. É minha amiga. Quando voltar a resmungar e a dizer que não tenho sorte nenhuma, vou procurar lembrar-me de ti e da tua escrita. Vou lembrar-me da felicidade ser amigo de alguém assim. Este pedaço de texto teu, que aqui recordo, é do tempo de um blog a dois, em 2004. Lembras-te? Escrevias assim:

Lisboa de nós

Tanto de nós que ficou nesta cor azul do Tejo.
Hoje acordei sózinha num hotel da Praça de Espanha. Não vejo os jornais de ontem espalhados pelo chão, nem as
tuas calças azuis escuras de bolsos encostadas a um canto. Não vejo os teus olhos enormes nem as tuas palavras
a pedir sono na manhã que desponta.
Tanto de nós que ficou nesta água que parece que não corre. Sou metade daquilo que era. Falta o sentido da água, falta
o mar a correr para nós e as mãos com os dedos entrelaçados em ruas que nos levavam a uma qualquer entrada de prédios, onde qualquer metro de espaço servia para amores de corpo e almas numa só.
E o tecto que girava e tu que ficavas assim como quem quer carinhos de menino num corpo de homem.
Lisboa, 2004.
Vou para o Porto.

Matilde