Boxeur

By António Reis

[continuação]

Tudo o que tinha era o corpo. Tudo o que tinha era velho, doente, usado até. Tudo o que tinha eram os últimos dias de vida. Tudo o que tinha era ele. Um rosto fechado e magro. Cabelo escasso e cinza. Pele sobre os ossos, comida pelo sol, e rugas. Fisicamente ele era meia dúzia de adjectivos pardos. E fisicamente sentia-se assim. As emoções tinham o mesmo tom infeliz. E ele, comandante solitário daquela vida dorida, lembrava-se de ser como está hoje em dia, desde sempre. Quando puxa os dias atrás, precisa de uma força de mil homens para recordar. Por norma está deitado quando inverte a curva do tempo e viaja aos dias mais antigos. Fecha os olhos e só ao fim de algumas horas consegue arrastar a memória para lá das lembranças de adulto. Imagina um escritório abandonado. Vê-se a abrir metade de uma portada de madeira para deixar entrar uma faixa de luz. O pó dança compacto e a dança sufoca. Tenta evitar, mas tem de tossir. Esta pausa é click obrigatório para a jornada de regresso. Tosse, pára, retoma respiração normal, volta a fechar os olhos. E então sim, está no Outono dos calções de flanela, suspensórios escuros, camisa russa por dentro do calções, meias pelo tornozelo, botas de sola dura. A imagem, dos pés à cabeça, termina sempre num boné castanho

 [continua]

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