Arquivo de Setembro, 2008

Le marriage

Setembro 23, 2008

Atentemos no “barulho” que por aí anda sobre o casamento entre homossexuais. É mesmo preciso conversa pública? É mesmo necessário existir ainda discriminação quanto ao género de um vínculo legal entre duas pessoas que se amam ou que pretedem uma vida em comum? Sim, tanto “barulho” para quê? Peço um motivo, único, válido, lógico, racional, intelectual ou humano para impedir a legalidade do casamento entre homossexuais.

O país continua a assobiar para o lado, os legisladores viram a cara, os governos sucedem-se com a nulidade uns dos outros… Enfim… Tudo na mesma, tudo igual. Sem espaço, de facto, para a dita diferença.

Está aí à porta um ano de eleições e todos querem a absoluta maioria dos votos. Nem que seja uma maioria absolutamente estúpida.

Proibido, e por decreto lei, deveria ser o casamento dos portugueses com os políticos cá do burgo. Talvez um dia Portugal decida divorciar-se dessa gente.

Boxeur

Setembro 23, 2008

[continuação]

Tudo o que tinha era o corpo. Tudo o que tinha era velho, doente, usado até. Tudo o que tinha eram os últimos dias de vida. Tudo o que tinha era ele. Um rosto fechado e magro. Cabelo escasso e cinza. Pele sobre os ossos, comida pelo sol, e rugas. Fisicamente ele era meia dúzia de adjectivos pardos. E fisicamente sentia-se assim. As emoções tinham o mesmo tom infeliz. E ele, comandante solitário daquela vida dorida, lembrava-se de ser como está hoje em dia, desde sempre. Quando puxa os dias atrás, precisa de uma força de mil homens para recordar. Por norma está deitado quando inverte a curva do tempo e viaja aos dias mais antigos. Fecha os olhos e só ao fim de algumas horas consegue arrastar a memória para lá das lembranças de adulto. Imagina um escritório abandonado. Vê-se a abrir metade de uma portada de madeira para deixar entrar uma faixa de luz. O pó dança compacto e a dança sufoca. Tenta evitar, mas tem de tossir. Esta pausa é click obrigatório para a jornada de regresso. Tosse, pára, retoma respiração normal, volta a fechar os olhos. E então sim, está no Outono dos calções de flanela, suspensórios escuros, camisa russa por dentro do calções, meias pelo tornozelo, botas de sola dura. A imagem, dos pés à cabeça, termina sempre num boné castanho

 [continua]

Requiem

Setembro 22, 2008

Adeus aos dias e às noites. Adeus ao nome, às vidas, aos artistas. Adeus à cor destes cabelos, ao vento preso a eles, à chuva que os molha. Adeus ao chão desta viagem, às paragens, às andanças, aos avanços e aos recuos. Adeus por tudo, adeus por nada. Adeus assim como quem vai, adeus assim para quem fica. Um beijo quente, um abraço forte. Adeus aos gestos, aos rumores, aos amigos, aos amores. Um beijo forte, um abraço quente. Adeus para sempre.

il nome mio nessun saprà

Setembro 22, 2008

Mesmo que por encomenda fosse, a tarde de hoje não podia estar mais de acordo com a tarde de hoje.   Lá fora acontece a extraordinária beleza de um dia horrível. Um olhar, por entre as janelas, encontra, por causa da chuva ininterrupta, nas casas, nos carros e nas pessoas, encontra um som. Encontra um surdo surdo de quem enlouquece. Encontra a banda sonora da própria loucura.

O louco baixa a guarda. Fecha a janela. Procura o tom certo, sopra o pó dos discos. Nessum Dorma. “ guardi le stelle, che tremano d’amore e di speranza… Ma il mio mistero è chiuso in me, il nome mio nessun saprà” . O louco prepara a morte com método. Começa, pára, recomeça. Idealiza, genializa, na solidão perfeita dos próprios intentos. E então, com método, encontra metáforas, faz o faz de conta: a agulha é uma arma; o disco é a cabeça; a música, uma bala.

O princípio da morte é o som poderoso de uma música. É um tiro. As voltas do disco são uma bala filmada em câmara lenta. A voz do cantor lírico é um filme em marcha atrás da vida inteira. Como se vê nos filmes, aqui, a voz do cantor lírico desenha imagens, fotografa momentos.  “Ed il mio bacio scioglierà il silenzio che ti fa mia !”

Durante toda  a viagem da bala, quase morto, canta o original italino aqui traduzido assim: “Esvaneçam, estrelas… Ao amanhecer eu vencerei! Vencerei! Vencerei! ” E morreu nesse preciso instante, na exultação da liberdade.

Para quem fica, fica isto: e agora falem, digam, desdigam. A liberdade do louco acabou com a vossa. Com ele morto, que vos resta, ó séquito de bestas, para sussurrar? A vossa liberdade de devassar a vida dele morreu com ele. Os estilhaços ficam convosco, em forma de remorsos. Chorem lágrimas hipócritas ou soltem risos verdadeiros. Mas que ninguém esqueça uma frase antiga: quando eu morrer não chores por mim. Posso estar a divertir-me.

 ”Ma il mio mistero è chiuso in me”

Nessun Dorma.

Excertos do Futuro [1]

Setembro 19, 2008

Embrulho neste texto planos para um domingo à tarde. Há-de ser numa hora de luz branda, encontrados no coração da cidade, numa praça do passado. (continua)