- Mas sabes qual é o sonho da minha vida?
- Qual?
-Poder viver da escrita. Ou melhor: ela poder viver depois de eu morrer.
- …
- Mas não tenho tempo para escrever. Ando muito ocupado a viver…
- Tu não andas a viver. Andas a sobreviver.
- Mas sabes qual é o sonho da minha vida?
- Qual?
-Poder viver da escrita. Ou melhor: ela poder viver depois de eu morrer.
- …
- Mas não tenho tempo para escrever. Ando muito ocupado a viver…
- Tu não andas a viver. Andas a sobreviver.
Boavista - Este conto terá a brevidade necessária de um par de mamas num relance. Ela está com ar de quem vai atravessar a passadeira sem esperar para ver se o carro pára ou não. Que páre, pensará. Mas ele segue em frente e quem pára é ela, no limite do passeio. Ela fica ali surpresa, apesar de ir no canto do olho esquerdo de um condutor arrependido de não ter cedido a vez à menina. Teria tido mais tempo para dar o devido valor à lycra branca, presa por duas alças singelas, directamente sobre um peito atrevido de sorriso largo. Apontado ao céu, para felicidade dos comuns mortais.
No Castelo de Kronborg
Elsinore (Helsingor, Dinamarca), numa viagem marítima, fica a 20 muntos de Helsingborg (Suécia). A partir daqui, lá chegar custa 27 coroas suecas, qualquer coisa como 2 euros e 70 cêntimos. Fomos num dia sol, num paquete da Scanlines com o sugestivo nome de Hamlet. No piso superior, ao ar livre, o meio da viagem, mesmo num dia de temperatura amena, aconselha e pede um casaco. E obriga mesmo a uma descida a patamares cobertos, mas apenase só para demorar o tempo necessário de pedir um café e voltar a subir. Elsinore está sempre em linha de vista, logo desde o porto de Helsingborg.
De corpo já encasacado e caneca de plástico à mão, o melhor é mesmo ficar pelo convés e não perder um segundo que seja, deste zoom sobre o atlântico, ao porto de Elsinore. É um espaço com rugas - numa apreciação sobre o joelho - é um espaço com vida, podem dizer outros, ou poderá ser também e ao mesmo tempo um lugar de histórias.
Avançando terra dentro, após uma primeira paragem numa casa de câmbios, Elsinore apresenta-se em ruas pedonais muralhadas por espaços comerciais. Ganham com larga maioria as lojas de bebidas alcoólicas. Depois as roupas, a seguir os restaurantes. Logo ali à chegada, uma esquina faz a entrada de um hotel em madeira branca e remates a verde. Ali chegados, estamos no Hotel Hamlet. Um pouco mais adiante, virando numa rua à esquerda e entrando depois numa arcada à direita, estamos no Teatro de Elsinore. Aparece logo depois de um pátio interior. Tem o nome escrito a preto numa parede branca. Tem pó nos vidros e a tinta cinza das portas de madeira está muito gasta. O cheiro é antigo e abandonado.
Fugindo desta baixa comercial, continuamos a pé até ao castelo de Kronborg. Espreitamos Elsinore em duas horas.
…rostos suaves, cabelos de perdição, muita cor no olhos. Aqui, no norte da europa, as mulheres trazem no olhos o mar na linha do equador. Talvez os corpos sejam areira branca e promessa de calor dos trópicos.