Arquivo de Maio, 2008

Boxeur

Maio 12, 2008

[continuação]

Enquanto vai ocupando os armários da kitchnet, mói para dentro que a comida satisfaz o corpo, mas pode estragar o espírito. Fica a matutar naquilo e chega depressa a uma conclusão. A comida estraga qualquer projecto de literatura. Nenhuma frase fica bem com cebolas e alhos pelo meio, nem mesmo para encher chouriços. Tira um bloco azul, muito pequeno, do bolso de trás das calças e anota: “a comida estraga qualquer projecto ou ideia de literatura. Não escrever nunca sobre alimentos”. Acabou a tarefa fechou o armário e foi fumar lá para fora, decidido e sorridente com aquela inesperada preocupação de não engordar os leitores. Quando regressou já era noite. Vinha esbaforido, num passo atrapalhado, a transpirar mais do que a idade permitia. Vinha com pressa de contar à máquina de escrever o final de tarde do primeiro dia. Tropeçou na caixa dos garrafões de água

[continua]

British bullshit award

Maio 9, 2008

So you miss me like hell. It was when i held you like a miss. Dismiss. No kiss. Like Kids. Go deep. Gossip.

 

Boxeur

Maio 9, 2008

[continuação]

A praia da mais do que provável última morada é o abandono em pessoa. Tem um sítio estreito para dormir ao qual não nos atrevemos a chamar quarto. Nesse espaço cabe meia cama de solteiro, que ele ocupa com uma chaise long, e de tão estreita ser, a parede deu quase a totalidade do corpo a uma janela em forma de porta. A sala é sala e cozinha ao mesmo tempo. Com o avançar dos dias vai ser sala, cozinha e quarto. Lá mais para a frente vai ser tudo. Vai ser o mundo inteiro de um homem, até ele se apercerber que afinal, tudo, pode ser nada.
A porta da frente dá para a rua, se quisermos chamar rua a um caminho de terra com marcas de rodado nos limites laterais e erva densa pelo meio. A estrada principal mais próxima fica a 50 minutos a pé bem contados. A porta de trás abre a casa à areia da praia e deixa o mar, recortado, em fundo.
Toda a comida dispensa frigorífico. Três postas de bacalhau, o resto de uma garrafa de azeite, uma de vinagre. Um quilo de batatas, quatro cebolas e outros tantos alhos. Sal. Uma lata de feijão vermelho cozido, pacotes de batata frita. Sete garrafas de vinho e duas de whisky. Três broas de milho.

[continua]

Boxeur

Maio 9, 2008

Esta é a casa de um lutador. Um homem versátil. Estas paredes são as cordas do ringue ou as cortinas de uma boca de cena. Aqui existe uma luta de vida ou morte entre um homem e a incapacidade de escrever. Ele está no último degrau da normalidade. Está disposto – disposto não, está muito mais do que isso – está determinado a deixar a própria vida nas mãos da escrita. Refugiou-se aqui com a obsessão de colocar palavras no papel. Veio para escrever com luvas de boxe ou sapatilhas de ballet. Trouxe água para vinte dias e alimentos para uma única semana. Antes de se mudar para cá mandou cortar a luz e fez o mesmo com a água da companhia. Não há gás, televisão ou internet nesta casa. Nem telefone ou telemóvel. Ele veio para desenterrar todas as letras daquele corpo delgado. Sabe que na pior das hipóteses, se tudo correr mal, se for incapaz de sair vencedor, terá de ironizar com a situação. Terá de usar o sarcasmo em si próprio e, antes do último sopro, deve deixar numa folha, a título quase póstumo, a inscrição aqui jaz um falhado.
[continua]