Arquivo de Abril, 2008

Homem temporariamente só

Abril 27, 2008

A noite entra pela janela sem convite. Esperava por ela desde a hora do almoço e como vem mais tarde nestes dias onde o tempo ainda não sabe muito bem o que fazer ao quente e ao frio, porque ela tardava, quando veio, já não contava com ela.

A noite teve a felicidade de chegar com a voz de Antony Hegarty. Quero com isto dizer que me apanhou rendido, sem medo de nada, desligado. Vivo. A noite entrou sem convite, vinha com um resto de mar sobre os ombros. Disse à noite que isto não são lágrimas: é um rio sem barreiras naturais nos meus olhos. Nestes dias não sei ainda muito bem o que vai ser do quente e do frio dos meus passos. Tenho a certeza de tudo aquilo que não quis. Rendo-me. Entrego o  meu corpo. A minha voz. Os abraços e os beijos. Entrego a força e os sentidos. Entrego vida, as minhas cores. Entrego todas letras. Faz palavras boas, dança em todas as frases, ri dos pontos e das vírgulas. E nas interrogações, chama por mim.

Sou a metade. O futuro. Completa-me.

Uma forma de plágio*

Abril 17, 2008

Isto não é, isto não é um texto. Isto é um escudo, isto é charme…com o teu nome.

Com este ritmo, com estes versos, estou protegido. Isto não é um texto, é um espelho com o teu nome. Escrevo. Sinto a tua falta quando fores embora.

Os teus olhos, veneno de uma caneta; a tua língua, de serpente.

E se me perguntarem: isto não é um texto. É um espelho com o teu nome. As minhas palavras vão sentir a tua falta quando fores embora.

* esta é uma tradução livre e adulterada de uma música de James: we´re gonna miss you when you´re gone. passou ao lado do grande público, infeliz ou felizmente

Tantas vezes tu

Abril 15, 2008

Espera.

Neste minuto espera tudo. Só não esperes o sorriso daquele quarto. Espera  pelo sopro do vento e decide o coração. Enquanto o fizeres, tira, se o conseguires, tira do teu corpo, o movimento  agarrado nas ondas brancas daquela cama.  

Espera e vê: o futuro a fugir  só pelo medo de dar um passo firme. Eu  sei que está escuro. Também vejo todos os demónios. Eles dançam nos teus cabelos. Morres em todos os segundos. A  vida pode estar na outra face deste rosto terrível da incerteza. Há uma tempestade na tua cabeça e queres acudir a todos os náufragos.  Isso só é possível com a violência da verdade.  

Eu estou aqui com uma mão estendida. É suave para te afagar as dores, mas também guarda, para  te  proteger, uma força de mil homens. O caminho é tortuoso. Não tens de o fazer sózinha.

Regressa às ondas brancas daquela cama. A minha boca vai estar vestir o teu corpo quando o sopro do vento decidir  o coração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O jogo do amor

Abril 2, 2008

São quase horas de acordar. O jogo acaba hoje, de uma ou de outra forma.

Tiro do armário o conjunto alternativo. Calças, blazer. Em preto. As meias, os sapatos, o cinto e a camisa.

Salto para o chuveiro antes do início da partida. Demoro. Ensaio a táctica, espalho a espuma de barbear, concentro o olhar nos olhos do espelho. Em cada passagem, a gillete é confidente de uma frase. Foi a última palestra.

Os minutos passam, a hora aproxima-se, o ritmo aumenta. A camisa por dentro das calças. Aperto de cinto determinado. Blazer de uma vez só. Sapatos: um, dois.

Está da hora de jogarmos esta final. Vens com o equipamento principal: calça descida, justa, camisa adequada ao corpo, desabotoada até onde convém. Agradeço. Casaco fino sobre a mala.

Entramos no quarto como se estivessemos a ganhar. Trocamos as camisolas muito antes do apito incial. Somos o corpo do maior espectáculo do mundo. Amparo-te no peito, jogo-te à flôr da cama. Sou o ataque, desistes de ser a defesa. O beijo tem o som de uma multidão feliz. Trago a nudez de volta à tua alma. O amor acordou numa tarde de primavera. 

Bloqueio

Abril 1, 2008

Quanto a fonte seca, recorro ocasionalmente a escritos antigos. Como neste exemplo, de dezembro de 2006:

Olha-me nós olhos. Fala-me nos lábios. [com o exacto intervalo de um ponto entre frases curtas]