Tão habituado à presença dele, tão certo de o ter por garantido, passei por lá sem reparar que ele não estava. Alguém me diria, mais tarde, do seu desaparecimento. Mas quando por lá passei, entretido com a conversa flutuante das gaivotas, nem reparei. Acho mesmo que lhe dei as boas tardes, disso não duvido, mas é como digo, olhar para ele não olhei, tão certo de o ter por gantido, ali, de costas para o azar das marés, com um peixe às costas para alimentar a persistência dos pescadores.
Sempre o tratei por tu, mas no entanto nunca perdi um segundo que fosse para lhe dar um nome. Deve ter sido por causa desta minha coluna, vertebral e agnóstica.
Era um homem alto, de olhos escuros, com a mais rija das barbas. Num ou noutro ocaso, imaginei-lhe um cigarro pendido nos lábios, apesar de saber com uma certeza a fugir para a dureza do bronze, que ele nunca fumou em toda vida. Falou sobre as gentes do mar, durante uns meses, enquanto lá esteve, sem a necessidade de dizer uma única palavra. E não podendo, ouviu o som surdo das ondas, o grito agoniado das sirenes ou o riso das pegadas das crianças na areia. Sei que, não podendo, viu o sol de todas as manhãs, virado para terra como estava; viu choro dos estranhos e acredito que mesmo não podendo, terá chorado com eles lágrimas gémeas de compreensão. Acredito com uma certeza a fugir para a dureza do bronze, que, na noite em que o levaram, viu a luz do farol e ouvi-a gritar por socorro.
Acredito em tudo isto porque alguém me disse mais tarde do seu desaparecimento, com recurso a palavras em português acessível:”foi de noite, seis gajos numa carrinha. É para droga, o pescador é pesado para caralho. Foi para derreter”.
A minha lista de ódios de estimação abriu um alínea para os ladrões de estátuas.
