O assunto é sério. A palavra certa é brincar. A história foi assim: à primeira vista.
A primavera tinha os dias contados. Eu tinha vontade imensa de mulheres. Tu tinhas abandono no olhar. Aconteceu à beira-mar. Fomos apresentados e conhecemo-nos, trocamos números de telefone. Até um dia destes, dissemos, com dois beijos na cara.
Não deves saber, mas ao longo desse ano houve uma única sexta-feira em que fiquei em casa. Estava saturado em doses idênticas. Das horas de trabalho, do excesso do álcool, das noites sem dormir, das mulheres à experiência, do sexo pela primeira vez. Acho que até dos minutos sentado ao volante. Fiquei em casa a dormir. Estive mesmo para silenciar o telefone. Estava a dormir há quatro horas, era quase meia-noite.
A chamada era de um número que não estava na lista. A mulher do outro lado dizia que se calhar não me lembrava dela. Dizia que estava a ligar do telefone de uma amiga. Soube logo que eras tu. Estava a acontecer um minuto feliz. Um dos mais felizes. A surpresa chegou daquela forma muito ao jeito dela. Devo ter dito que já não precisava de descansar mais, pediste desculpa por me acordar, acertamos uma cola-cola e uma tosta mista. E fomos.
Foi demasiado depressa. Foi tudo em pouco mais de uma hora. O tempo parou no teu rosto. Não houve beijo. Não quis estragar uma noite perfeita. Não houve beijo. Despedimo-nos a prometer telefonar. Acabei a noite a fazer que fazia em todas as outras. Sentado ao volante, com o mesmo grupo de amigos, de excesso de álcool em excesso de álcool, mas sem mulheres à experiência, nem sexo pela primeria vez.
O assunto é sério. A palavra certa é brincar. Foi assim: à primeira vista.
E lá passaram dois meses. Sempre juntos. Felizes. O sexo era uma palavra de várias conversas. O acto em si, não existia. Os nossos corpos faziam a escola primária e não deixavamos que eles chegassem à faculdade. Tu não deixavas porque sabias das outras mulheres da minha vida. Eu não deixava por ti.
O assunto é sério, a palavra certa é brincar. Brincar com situação, de dois adultos apaixonados sem sexo. Brincar com a situação, como quando tu, tocavas onde (não) querias e dizias: “isto é só ar e vento!”. Até que um dia, num dos melhores dias… aconteceu. Estava a acontecer há poucos minutos, no meu colo, e perguntei, como se estivesse a brincar com as conversas anteriores:” então, e o ar vento?”. Respondeste, muito pausadamente, ainda que por instinto: “vento?… que ven-ta-nia!”.
Tinhas um vestido azul celeste, baixado num sítio e levantado no outro. Tinhamos contado os dias do fim da primavera. Entramos no verão numa noite estrelada. O mar sorria à nossa frente.
A inspiração vem quando a noite mais dorme. Tu vens em todas as horas. O mundo está em teu nome. A ficção vai dormir.