Arquivo de Março, 2008

2046*

Março 31, 2008

Isto não é uma crónica (as outras também não o eram). É um empréstimo sem juros. E um tributo.

Ao realizador chinês Wong Kar-way.

Escreveu assim para o filme 2046.

“Fica comigo esta noite. Deixa-me emprestar-te a minha pessoa…”

* Lembrete: comprar o filme às escuras. Sem pensar antecipadamente como vai ser depois; sem saber se valerá a pena decidir sem garantias. Para decidir num detalhe. Por uma frase, como é o caso, ou por um arrepio, como acontece nos filmes do dia-a-dia. 

Terpsícore

Março 25, 2008

O nome não é bonito. O nome não tem de ser bonito. Não precisa. No caso em questão não precisa. E o nome não é bonito, mas cumpre o preceito essencial: descreve a beleza daquela mulher.

Terpsícore foi um lugar longe. Foi descoberta no tampo gasto de uma mesa corrida. Coberta de papéis, capas e contra-capas, na ausência de ruído da biblioteca. Num sítio assim, o silêncio é uma tarefa delicada, quando lá existe a cabeça de um homem apaixonado. Mesmo calado parece falar pelos cotovelos. Apoia-os, retira-os, leva as mãos à cabeça, estica as pernas, recolhe, procura. Procura a melhor forma para definir a beleza daquela mulher.

Ernesto, definação de baptismo para aquela forma de amor em corpo de homem. Ernesto gostava da palavra musa, queria utilizá-la para descrever a paixão nas curvas da tal mulher conhecida de vista. Ernesto foi aos livros e leu todas as musas possíveis e impossíveis. Leu  a tradução religiosa de musa, leu as flores. Preferiu seguir o caminho da definição e perder-se na morada das nove deusas gregas.

Escolheu Terpsícore. O nome não é bonito. Não precisa. Escolheu Terpsícore, a Rodopiante. Deusa da dança. Fechou os livros, fechou os olhos, esticou as pernas e descansou. Levou para contar uma história de sorrisos a uma mulher desconhecida. Adormeceu no movimento das ancas da senhora. Conheceu-lhe a alegria dos seios. E pediu: “dança comigo nos teus sonhos”.

Março 22, 2008

Digo pouco para mais ninguém ouvir. Escuta-me com o olhar.

Cartas de Matilde (1)

Março 22, 2008

Sou um rapaz apaixonado pelo talento desta mulher. É minha amiga. Quando voltar a resmungar e a dizer que não tenho sorte nenhuma, vou procurar lembrar-me de ti e da tua escrita. Vou lembrar-me da felicidade ser amigo de alguém assim. Este pedaço de texto teu, que aqui recordo, é do tempo de um blog a dois, em 2004. Lembras-te? Escrevias assim:

Lisboa de nós

Tanto de nós que ficou nesta cor azul do Tejo.
Hoje acordei sózinha num hotel da Praça de Espanha. Não vejo os jornais de ontem espalhados pelo chão, nem as
tuas calças azuis escuras de bolsos encostadas a um canto. Não vejo os teus olhos enormes nem as tuas palavras
a pedir sono na manhã que desponta.
Tanto de nós que ficou nesta água que parece que não corre. Sou metade daquilo que era. Falta o sentido da água, falta
o mar a correr para nós e as mãos com os dedos entrelaçados em ruas que nos levavam a uma qualquer entrada de prédios, onde qualquer metro de espaço servia para amores de corpo e almas numa só.
E o tecto que girava e tu que ficavas assim como quem quer carinhos de menino num corpo de homem.
Lisboa, 2004.
Vou para o Porto.

Matilde

Prova de vida

Março 20, 2008

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9 de março de 1974, 

Mandam dizer que foi depois da uma da tarde. A mãe trazia na barriga o sonho de uma vida.  O pai gastava as solas no soalho de uma sala de espera vazia. Mandam dizer que o frio lhe encolhia os ombros. Que a ansiedade lhe tolhia o rosto e as pernas não lhe davam descanso. Mandou comprar cigarros, dois maços. Mandou trazer esperança e boa sorte. Sorriu.

A mãe era uma mulher bonita. Uma flôr de desenho humilde. Tinha a palavra amor escrita nas linhas do rosto. Numa tinta invisível, perceptível apenas no olhar dos mais sensíveis. O pai soube ler aqueles traços e julgou ter encontrado a vida eterna. Era um homem elegante. Um senhor feito à medida da ilusão das raparigas. Como se viesse de um catálogo de príncipes perfeitos.

Mandam dizer que se amaram com respeito e nobreza. Que foi uma história sem mácula. Nunca ousaram pecar quanto aos costumes. Também não terá sido um romance de época, nem terão seguido à letra os livros sobre essa arte de completar alguém. Mas sabiam de cor os versos enrugados do sacrifício e neles encontraram os caminhos todos em direcção a um lugar feliz.

Mandam dizer que foi depois da uma da tarde. Que a mãe trazia na barriga o sonho de uma vida. O sonho tinha vontade própria, respondia com teimosia ao nascimento. O sonho era amor em estado puro, era egoísmo. O sonho era o céu e o inferno. O sonho era eu.

O teu nome

Março 17, 2008

O assunto é sério. A palavra certa é brincar. A história foi assim: à primeira vista.

A primavera tinha os dias contados. Eu tinha vontade imensa de mulheres. Tu tinhas abandono no olhar. Aconteceu à beira-mar. Fomos apresentados e conhecemo-nos, trocamos números de telefone. Até um dia destes, dissemos, com dois beijos na cara.

Não deves saber, mas ao longo desse ano houve uma única sexta-feira em que fiquei em casa. Estava saturado em doses idênticas. Das horas de trabalho, do excesso do álcool, das noites sem dormir, das mulheres à experiência, do sexo pela primeira vez. Acho que até dos minutos sentado ao volante. Fiquei em casa a dormir. Estive mesmo para silenciar o telefone. Estava a dormir há quatro horas, era quase meia-noite.

A chamada era de um número que não estava na lista. A mulher do outro lado dizia que se calhar não me lembrava dela. Dizia que estava a ligar do telefone de uma amiga. Soube logo que eras tu. Estava a acontecer um minuto feliz. Um dos mais felizes. A surpresa chegou daquela forma muito ao jeito dela. Devo ter dito que já não precisava de descansar mais, pediste desculpa por me acordar, acertamos uma cola-cola e uma tosta mista. E fomos.

Foi demasiado depressa. Foi tudo em pouco mais de uma hora.  O tempo parou no teu rosto. Não houve beijo. Não quis estragar uma noite perfeita. Não houve beijo. Despedimo-nos a prometer telefonar. Acabei a noite a fazer que fazia em todas as outras. Sentado ao volante, com o mesmo grupo de amigos, de excesso de álcool em excesso de álcool, mas sem mulheres à experiência, nem sexo pela primeria vez.

O assunto é sério. A palavra certa é brincar. Foi assim: à primeira vista.

E lá passaram dois meses. Sempre juntos. Felizes. O sexo era uma palavra de várias conversas. O acto em si, não existia. Os nossos corpos faziam a escola primária e não deixavamos que eles chegassem à faculdade. Tu não deixavas porque sabias das outras mulheres da minha vida. Eu não deixava por ti.

O assunto é sério, a palavra certa é brincar. Brincar com situação, de dois adultos apaixonados sem sexo. Brincar com a situação, como quando tu, tocavas onde (não) querias e dizias: “isto é só ar e vento!”. Até que um dia, num dos melhores dias… aconteceu. Estava a acontecer há poucos minutos, no  meu colo, e perguntei, como se estivesse a brincar com as conversas anteriores:” então, e o ar vento?”. Respondeste, muito pausadamente, ainda que por instinto: “vento?… que ven-ta-nia!”.

Tinhas um vestido azul celeste, baixado num sítio e levantado no outro. Tinhamos contado os dias do fim da primavera. Entramos no verão numa noite estrelada. O mar sorria à nossa frente.

A inspiração vem quando a noite mais dorme. Tu vens em todas as horas. O mundo está em teu nome. A ficção vai dormir.

Pequenas estórias d´Avenida (1)

Março 14, 2008

Boavista - Em descendo ao exterior, à hora da pausa matutina, para segredar um cigarro, encontro o sol alegremente tímido. Com uma cara fora de estação, embora feliz. Partilhamos fumo e ideias dispersas.  Até já.

Quando volto a descer à rua, o sol não está mais à porta. Já saiu para o almoço. Hoje vou pedir a ementa numa esplanada. Pode ser que ele apareça entre a sopa e o conduto, ou então nas páginas deste jornal que vai comigo debaixo do braço.

O homem roubado

Março 14, 2008

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Tão habituado à presença dele, tão certo de o ter por garantido, passei por lá sem reparar que ele não estava. Alguém me diria, mais tarde, do seu desaparecimento. Mas quando por lá passei, entretido com a conversa flutuante das gaivotas, nem reparei. Acho  mesmo que lhe dei as boas tardes, disso não duvido, mas é como digo, olhar para ele não olhei, tão certo de o ter por gantido, ali, de costas para o azar das marés, com um peixe às costas para alimentar a persistência dos pescadores. 

Sempre o tratei por tu, mas no entanto nunca perdi um segundo que fosse para lhe dar um nome. Deve ter sido por causa desta minha coluna, vertebral e agnóstica. 

Era um homem alto, de olhos escuros, com a mais rija das barbas. Num ou noutro ocaso, imaginei-lhe um cigarro pendido nos lábios, apesar de saber com uma certeza a fugir para a dureza do bronze, que ele nunca fumou em toda vida. Falou sobre as gentes do mar, durante uns meses, enquanto lá esteve, sem a necessidade de dizer uma única palavra. E não podendo, ouviu o som surdo das ondas, o grito agoniado das sirenes ou o riso das pegadas das crianças na areia. Sei que, não podendo, viu o sol de todas as manhãs, virado para terra como estava; viu choro dos estranhos e acredito que mesmo não podendo, terá chorado com eles lágrimas gémeas de compreensão. Acredito com uma certeza a fugir para a dureza do bronze, que, na noite em que o levaram, viu a luz do farol e ouvi-a gritar por socorro.

Acredito em tudo isto porque alguém me disse mais tarde do seu desaparecimento, com recurso a palavras em português acessível:”foi de noite, seis gajos numa carrinha. É para droga, o pescador é pesado para caralho. Foi para derreter”.

A minha lista de ódios de estimação abriu um alínea para os ladrões de estátuas.

Era uma vez Helena

Março 5, 2008

És Helena. Pois então sejas. Posso até ter-me por esquisito, mas nunca recusei uma mulher pelo nome marcado com o ferro. Divertes-te. Não, não; dizes não várias vezes, em todas exclamado. Corriges e dizes ser eu quem te diverte. Divagas sobre o meu charme humorado. 

Acabas por dizer que as frases nos aproximam. Preferes continuar noutro dia. Não vá a conversa terminar num beijo destemido a um estranho. Dás-me liberdade para escolher; escolho concordar contigo. Dividimos a conta do café com um até amanhã. Já estamos em pé quando afirmas um afirmar sem a menor dúvida. Sabes que gosto de mulheres, só não sabes do que mais gosto nelas. Respondo a essa tua curiosidade fêmea numa prontidão de honestidade: gosto de mulheres que me inspiram palavras.  

Verónica a caminho do fim

Março 5, 2008
Estava lá. Soberba e sozinha. Mesmo depois curva, a descer a rua para o início do texto. Trazia os pés no chão à velocidade destes dedos nestas teclas. Vinha com saudade. Chegava com a visão turva e lágrimas felizes no rosto. Trazia os braços com vontade de apertar. Assim, à espera de quem chega. Nessa ansiedade de trazer por casa. A minutos de um pranto familiar.
Trás os pés no chão, descalços, a uma velocidade agora insuportável para estas mãos nestas teclas. Chega. Abraça como se abraçasse a vida. Abraça como se abraçasse as útlimas linhas de um último texto. Não fica à espera de um beijo. Dá. E escreve no comprimento dos cabelos uma daquelas história com para sempre antes do ponto final.